sábado, 13 de junho de 2026

Consciência política e planejamento trazem craques de volta à África


Instagram/Seleção de Marrocos


Por Igor Carvalho – Brasil de Fato

Para jornalista que cobre o futebol africano, 'existe um despertar de consciência da nova geração africana'

Quando Guéla Doué, jogador da Costa do Marfim, chutou a bandeirinha de escanteio que trazia o símbolo da Federação Francesa de Futebol em Nantes (França), aos oito minutos do segundo tempo do amistoso contra os franceses, após um belo gol, ele criava o principal momento político do mundo do futebol no ambiente pré-Copa do Mundo.

O amistoso entre Costa do Marfim e França carregava uma peculiaridade. Em campo, Guéla enfrentava seu irmão, Désiré Doué, uma das principais apostas para o futuro do futebol francês.

Os irmãos Doué nasceram em Angers, na França, mas são filhos de marfinenses. Désiré quis jogar pela seleção francesa, enquanto Guéla optou por defender a Costa do Marfim, país de origem de seus pais.

“Desde pequeno, sonho em vestir essa camisa. É uma honra fazer parte de uma nação que acaba de ser coroada tricampeã africana. A camisa laranja representa o elefante, representa a pátria; é pura alegria estar aqui. Meu pai é marfinense, e é um grande orgulho poder representar esta camisa hoje”, declarou Guéla Doué quando anunciou sua escolha em defender a seleção marfinense no lugar da francesa.

A atitude de Guéla encontra eco em um movimento crescente na África, que ganhará contornos mais firmes na Copa do Mundo deste ano, disputada no México, Canadá e nos Estados Unidos. Jogadores nascidos na Europa, filhos de africanos, decidiram voltar às origens e defender o país de suas famílias.

Esse fenômeno se consolidou como uma das chaves fundamentais para o sucesso competitivo e a evolução do nível de competitividade das seleções do continente. Luis Fernando Filho, jornalista e fundador do projeto Ponta de Lança, que trata de política e futebol africano, explicou o êxodo dos jogadores à África.

“Existe um despertar de consciência da nova geração africana sobre a questão de pertencimento, mas também de honrar os pais. Estamos falando de pessoas que nasceram na França, mas, dentro de casa, têm a identidade africana preservada, pois os costumes se mantêm. Um exemplo é Guéla Doué, que fez o gol contra a França, que escolheu representar outro país por conta do pai dele, que é marfinense”, explicou Filho.

Os casos são diversos. Na Copa do Mundo 2026, a seleção do Congo terá como principal atacante Cédric Bakambu, que nasceu em Vitry-sur-Seine, na França. Um dos melhores laterais-direitos do mundo, Achraf Hakimi, nasceu na Espanha, mas escolheu se tornar o pilar de Marrocos em campo. O excelente e habilidoso meia Hakim Ziyech, nascido na Holanda, também defenderá a seleção marroquina, com a qual assombrou o mundo ao alcançar as semifinais na Copa do Mundo do Catar, em 2022.

Há outros exemplos marcantes dessa engrenagem de repatriação esportiva e cultural que desfilarão nesta Copa do Mundo. Nascidos na França, tem Nicolas Pépé (que joga pela Costa do Marfim), Ismaël Bennacer (Argélia), Kalidou Koulibaly (Senegal), Riyad Mahrez (Argélia) e Iliman Ndiaye (Senegal).

Já Nordin Amrabat nasceu na Holanda, mas jogará pela seleção marroquina. Brahim Díaz tem origem espanhola e é a grande aposta de futuro do Real Madrid, mas, neste campeonato, defenderá o Marrocos. Aaron Wan-Bissaka, lateral de elite que escolheu representar a RD Congo, nasceu, na verdade, na Inglaterra.

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